quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Educar para a diferença

O Luís (nome fictício) chegou à escola. Quem é o Luís? Perguntou a professora. “Tem paralisia cerebral”, era a resposta dada. Na aldeia todos se compadeciam do seu “Karma”, o Luís era protegido, tudo lhe era facilitado, nada era negado.

Numa sociedade rural fortemente enraizada pelo pensamento tipológico, a educação desta criança como futuro cidadão estava minada. A marca que transportava, estigmatizada na sua aura, era a porta de entrada numa sociedade falsamente rica em valores de solidariedade e compaixão.

As limitações do Luís valiam-lhe a definição da sua pessoa. Quem era o Luís, que competências construiria? O que poderia vir a alcançar? O Luís era apenas “o deficiente”. Esta marca acarretava já consequências nefastas para o seu processo de inclusão. As expectativas sociais em relação a si eram praticamente nulas.

Ao Luis foi-lhe “inocentemente” amputado o espaço de manobra, negado o acesso a um papel social onde pudesse mostrar as suas capacidades, foi-lhe negada a possibilidade real de aceder à igualdade de oportunidades face aos colegas. O processo de rotulagem estava a surtir efeitos irreversíveis.

A professora do Luís estava incrédula. Como poderia afirmar-se como profissional naquele contexto?

Acreditava que as limitações não definiam a essência humana, e que a diferença do Luís era igual à diferença do João, do Pedro, da Ana.
Ser o Luís era apenas a diversidade mais marcante. Todos na sala eram diferentes.

Acreditava que o Luís tinha chegado à escola com a sua “bagagem”, e nela trazia as suas crenças, a sua visão do mundo, a sua cultura. Tinha capacidades, interesses e motivações particulares e daí partiria para a sua construção como pessoa.

Esta professora não temia a diferença, sabia conviver com ela.

- “O Luís está em maus lençóis, agora tem que arrumar e comer sozinho” murmurava-se, sem a sensibilidade de pelo menos se tentar entender a sua estratégia autonomizante.

A professora tratava-o como mais uma criança na sala, não pretendia torná-lo normal, mas proporcionar-lhe condições de desenvolvimento, interacção, educação e experiências sociais idênticas aos colegas. Pretendia que esta criança fosse parte integrante da sala, e que aí desempenhasse papéis sociais válidos, que fosse respeitado pelas suas capacidades e não paparicado pela sua condição.

Utopicamente pretendia “educar” todos o que os rodeavam, na esperança de operar uma profunda transformação nesta sociedade.Sabia que ia encontrar obstáculos, mas nunca desistiu.

Sabia que muitas vezes se atribui maior prioridade à competência face à solidariedade, aos resultados académicos, em detrimento do desenvolvimento social e da personalidade. Estava consciente do mito de que a presença desta criança na sala poderia "impedir" o progresso das outras crianças.

Tinha a dolorosa consciência que estes mitos e crenças infundadas, impediam a extensão e profundidade da reforma que queria ajudar a construir.

Não desistiu.

Acreditou sempre que ao Luís deveria ser respeitado o seu ritmo de aprendizagem, que devia ser confrontado com o seu processo de aprendizagem e construção de conhecimento.

Nem sempre esta forma de estar na vida lhe valeu a simpatia pelo seu trabalho, mas acreditará até ao fim na individualidade destas crianças e numa educação adaptada às suas possibilidades. Pretende apenas educar para a diferença no seu contexto educativo.

Actuando desta forma acreditou desenvolver no Luís e nos colegas, atitudes de respeito, tolerância, solidariedade real e verdadeira, conjuntamente com um sentido amplo sobre a relatividade dos seus próprios valores.

Continua a acreditar que as pessoas constroem melhor os seus conhecimentos e a sua identidade em contacto com os outros. Acredita que assim se viverá a cidadania e a inclusão (as verdadeiras), e que só assim estas crianças serão futuros cidadãos numa sociedade mais justa.


E assim continua a acreditar, e a lutar …sempre.

Por um futuro melhor e mais justo...Celmira Macedo

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6 comentários:

  1. CELMIRA PERCEBO A SUA LUTA E SOU SOLIDÁRIA COM ELA. MUITO HÁ AINDA A FAZER NESTA SOCIEDADE.
    CONTE COMIGO PARA O QUE PRECISAR E, DEIXE-ME DIZER-LHE QUE A ADMIRO MUITO.
    PARABÉNS PELO SEU MAGNIFICO TRABALHO.

    CONCEIÇÃO

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  2. Maravilha-me este blog... E claro que sou "suspeita" porque sou mãe de uma anjo muito especial. Não sinto contudo que a minha sensibilidade fosse diferente antes de ser mãe. Nisso estou em paz comigo mesma. Talvez por isso Deus tenha entendido que eu daría uma mãe porreira deste meu anjinho.
    Passei por aqui mais para um abraço do que para fazer um comentário mais merecido de admiração, porque estou num dia cinzento, mas prometo voltar e dizer o que me vai na alma por ter conhecido através daqui uma maravilhosa entrega e dedicação que me inspira, motiva e fortalece.
    Grande abraço e até breve

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  3. Celmira, que posso eu dizer? Sei que ainda tenho tanto que crescer... Gostava que um dia os meus olhos olhassem com uma perfeição plena os outros, todos, os mais e os menos diferentes... Porque acredito que a perfeição está também nos olhos de quem vê... É essa a verdadeira luta da minha vida...

    Ainda mais poluídos que os meus existem muitos olhos, claro... olhos a quem ninguém explicou, talvez, que a normalidade é um conceito estatístico, e que a dimensão do ser humano não se calcula aritemeticamente...

    Esta professora tem de continuar, claro, a sua luta pela construção de olhos novos...

    Desses olhos novos dependem sorrisos, mãos e passos mais felizes...

    Mais uma vez deixo a minha profunda admiração, Celmira, por tão límpidos olhos...

    Beijo emocionado e grato

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  4. Olá... Hoje vim aqui de novo para uma leitura mais aprofundada do post que aqui comento, apenas digo que se pensassem todos os professores e sociedade em geral, como o expresso neste texto, não haveriam problemas tão graves ligados com que vive diáriamente com diferenças. O que mais dificulta a vida dos pais, após o embate inicial de saber que um filho nosso será diferente do que imaginámos, é a forma como nos aceitam na sociedade em geral. Após a fase inicial muitos de nós até recuperamos e queremos seguir um caminho com respostas que são possiveis, para podermos viver uma vida o mais feliz possivel, por vezes muito mais rica do que a de tantas pessoas. A grande barreira é a ignorancia social que grassa e se impõe sem a minima sensibilidade. A barreira da indiferença com que encaram estes temas e o egoísmo de grande parte das pessoas que vivem apenas voltadas para si mesmas. A barreira que permanece ainda assim na sociedade que tenta reduzir custos com situações onde isso não é sério, nem justo, nem aceitável. Estas barreiras é que tornam a nossa vida um caminho profundamente dificil. E a nossa fé faz-se de pessoas como Vós que demonstram um interesse e empenhamento incansável pelos nossos filhos, e sua familia. Percebo que este é um mundo também doce e apaixonante, às vezes à parte da ruíndade geral, onde as vitórias sabem mais que tudo, onde se valorizam afcetos e outrops sentimentos tão em vias de extinsão. Por isso muitos destes professores são também quase pais destes meninos (infelizmente nem todos). A todos estes o meu mais sincero abraço, o meu desejo é que sejam sempre fortes, porque tal como em nós, também sobre vós, por vezes caí o pano da duro da discriminação, porque são os professores dos "diferentes". Mas eu acredito que quem entra por amor neste caminho, fica ligado a ele por toda a vida.
    Abraço forte desta mãe

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  5. Olá, Celmira.
    Então o que é que eu posso dizer sobre o Luís? Será que inclusão e integração é a mesma coisa? Será que o Luís se sente integrado na escola? E incluido? Acho que vale a pena pensar nisto e sei que todos os pais de crianças com NEE percebem a diferença mas é muito importante que os professores/educadores também a percebam. No meu caso, sinto que o meu filho está integrado e incluído na sua escola no entanto conheço casos em que as coisas não são bem assim. É muito importante que esta professora continue o seu trabalho no entanto não é só o Luís que deve ter em conta. Toda a turma, auxiliares e restantes pessoas que estejam perto do Luís devem integrá-lo e inclui-lo na escola, na sociedade e na familia.
    Não há nada mais gratificante para estes pais do que chegar todos os dias para ir buscar o seu filho e perceber que ele se sente feliz naquele local. Com o Hélder é assim e é tão bom saber isso.Tenho tido a sorte de encontrar bons profissionais e acima de tudo, pessoas muito humanas e que gostam muito do meu filho e sei que ele gosta delas.
    Eu sei que trabalhar com estas crianças não é fácil e é preciso muita dedicação, por isso estes profissionais devem perceber bem qual o papel que desempeham pois são uma peça fundamental no processo de inclusão/integração destas crianças na sociedade.
    Pensem nisto e não se esqueçam que estas crianças percebem muito mais do que parece.
    Por favor, ajudem-nos a fazer os nossos filhos felizes e muito obrigada a todos aqueles que já o fazem todos os dias.
    Manuela Gomes

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  6. Olá, o que posso eu dizer do percurso desta professora esclarecida e humana? Simplesmente desejar que diariamente tal como nós, consiga que as pessoas com as quais nos cruzamos se questionem e que aos poucos a sua postura se modele num ideal de solidariedade, sim porque inocentes são as crianças que tentamos serem mais felizes e futuramente mais justas sem falsas inocências.
    Deixo um desejo de luta diária: que o futuro nos reserve muitos sorrisos de Luíses felizes nas nossas escolas e sociedade em geral.
    Educadora Lurdes Nunes

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