segunda-feira, 14 de março de 2011

Igualdade não é Identidade


"Combaterei pelo primado do Homem sobre o indivíduo - como do universal sobre o particular. Creio que o culto do universal exalta e liga as riquezas particulares - e funda a única ordem verdadeira, que é a da vida. Uma árvore está em ordem, apesar das raízes que diferem dos ramos.

Creio que o culto do particular só leva à morte - porque funda a ordem na semelhança. Confunde a unidade do Ser com a identidade das suas partes. E devasta a catedral para alinhar pedras. Combaterei, pois, todo aquele que pretenda impor um costume particular aos outros costumes, um povo aos outros povos, uma raça às outras raças, um pensamento aos outros pensamentos.

Creio que o primado do Homem fundamenta a única Igualdade e a única Liberdade que têm significado. Creio na Igualdade dos direitos do Homem através de cada indivíduo. E creio que a única liberdade é a da ascensão do homem. Igualdade não é Identidade. A Liberdade não é a exaltação do indivíduo contra o Homem. Combaterei todo aquele que pretenda submeter a um indivíduo - ou a uma massa de indivíduos - a liberdade do Homem.

Creio que a minha civilização denomina «Caridade» o sacrifício consentido ao Homem para que este estabeleça o seu reino. A caridade é dádiva ao Homem, através da mediocridade do indivíduo. É ela que funda o Homem. Combaterei todo aquele que, pretendendo que a minha caridade honre a mediocridade, renegue o Homem e, assim, aprisione o indivíduo numa mediocridade definitiva.
Combaterei pelo Homem. Contra os seus inimigos. Mas também contra mim mesmo. "

Antoine de Saint-Exupéry, in 'Piloto de Guerra'

quarta-feira, 9 de março de 2011

E a diferença saiu à rua num dia assim...

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A inclusão, um conceito a desconstruir.

As crónicas dos Martins I.

Decidi hoje partilhar convosco uma pequena reflexão que enquadro no Paradigma da inclusão das pessoas com diversidade funcional, decorrente de uma deficiência ou limitação.

Um título tão pomposo, quase nos remete para uma reflexão muito eloquente, não se iludam, não se trata disso! Pretendo apenas deixar umas palavras sentidas e renascidas de um emaranhado de vivências com as famílias dos Martins, Fábios e Marias e com os próprios Martins, Fábios e Marias, a quem todos os dias, alguém lembra que têm necessidades especiais (NE), sob a indicação socialmente aprovada de que são diferentes. Serão de facto?
Do meu ponto de vista são apenas mais lutadores, mais sofredores, muito mais esquecidos…porque diferentes somos todos (e ainda bem)!

Na LEQUE lidamos diariamente com os problemas destas pessoas. Somos testemunhas da sua dor. Sim dor! Dor que nós ajudamos a infligir, quando estacionamos num passeio, quando direccionamos aquele nosso olhar de misericórdia (perfeitamente dispensável), quando criticamos a família, sem nada fazer para a ajudar a encontrar o seu caminho, quando os impedimos de sair à rua e mostrar o que valem. Quando não acreditamos nas suas capacidades. Quando na vida não lhe damos as mesmas oportunidades… só por que lhes falta (pensamos nós) algo. Algo que nós temos de sobra (e ostentamos como qualquer pavão envaidecido): a boa (e falsa) pretensão em sermos mais… mais inteligentes, mais competitivos no emprego, mais perfeitos…

E… porque é que não somos mais… felizes? Já que somos tudo? Temos tudo?

Feliz como eu já vi muitos Martins, Fábios e Marias. As suas particularidades (“autisticas" e outras) deram-lhes uma peculiaridade: vêm mais longe que nós. Percebem o alcance das nossas acções, antes ainda de acontecerem. Vêm-nos! Sentem-nos! Amam-nos! Vivem cada pormenor da vida com a alegria que só os seus olhos conseguem espelhar. Rebolam a rir de contentamento apenas com a presença de quem amam. E Nós? Também gostávamos… eu pelo menos gostava de ser assim,  simples.
Os meus Martins, Fábios e Marias são muito mais felizes, porque SER, é o quanto basta. Para nós (os outros) o importante é TER, muito, sempre, desenfreadamente…O que fazer perante tanta futilidade!!!!

Descentrar? SER cidadão? É preciso. É urgente!! Precisamos de cidadãos neste país!!!

Vamos seguir as recomendações sábias e eloquentes de Paulo Freire? A CIDADANIA NÃO SE ESCREVE, VIVE-SE! E viver em cidadania implica viver numa sociedade que respeita e valoriza os seus cidadãos, tenham estas necessidades especiais ou não.
Viver em cidadania significa permitir que estas pessoas exerçam os seus direitos e deveres na sociedade, mas…quem lhes dará emprego?
Viver em cidadania implica garantir práticas de não discriminação, mas…porque é que as rotulamos? Mesmo apesar dos avanços sociais, as representações relativas a pessoas com necessidades especiais, têm ainda hoje um sentido pejorativo. São muitas (demasiadas) vezes apelidadas dedeficientes, e atrás dessa rotulagem vem o reducionismo das expectativas sociais, facilmente transportado em estigma.
Viver em cidadania significa garantir a igualdade de género, mas… se ainda fosse um rapaz…
Viver em cidadania não tem de ser uma miragem, divinamente escrita em qualquer lugar que se pretenda politicamente correcto. Pode ser o rosto de uma escola ou de uma sociedade que se reja (ou esforce por reger) pela verdade, justiça, igualdade e solidariedade. Que ajude a criar uma identidade onde a educação para a diferença existe e é vivida e respeitada por todos. Pode bem ser uma realidade para aqueles que, pela sua condição, cultura ou crenças, não vejam negado o acesso à igualdade de oportunidades.

Todos temos essa responsabilidade social. É o que isto verdadeiramente significa!
Se não ajudamos, podemos sempre não complicar, já é uma ajuda.

Um abraço solidário aos meus Martins, Fábios e Marias.

Celmira Maced